maio 05, 2008

O cão, o lobo e o homem

O tempo abandona o meu corpo como um amado abandona a virgem no leito de morte.
Olho-me no espelho e sei que vês em mim, hoje e ainda, a menina que te afagou a pele branca e antiga.
Eu já não sou eu. Embora tu não o vejas nem o saibas.
Vês no meu cabelo, o cabelo que te escorreu o rosto e o destino.
Ergues as mãos para segurar o meu corpo cansado, sem tomares consciênicia que em emim nada mais nascerá para além do erro torpe.
Dizes-me: "ausentei o meu coração, percorri caminhos que jamais imaginei percorrer, cuspi filhos e rezas, fui um cão e um lobo e um homem.".
Ouço-te, mas não te sei. Vives num mundo vermelho, rasgas o teu semblante em enganos puros com que vestes o teu passado.
Lá fora, ainda chove.Cai uma chuva que cobre o espaço lilás que medeia o meu coração e o de todos os outros.
Há em mim uma ânisia profunda de abandono e solidão.
Julgas-te igual, julgas o meu seio preenchido e maternal, julgas o meu olho vítreo e belo, quando na realidade eu sou apenas e tão somente um casulo donde jamais nascerá uma borboleta.
Um dia talvez te leve ao quarto onde jaz a menina que amaste e que eu encerrei. Um dia, talvez suporte um poema, um beijo ou uma pomba. Um dia, talvez te entregue num altar, longe do meu gelo, da minha dor e da doença que me consome o ventre.
E nesse dia tu saberás, tu terás uma clara noção do negrume da minha alma. Nesse dia, quando beijares o futuro saberás que eu serei sempre o teu passado.
E em sonhos, abraçarás a menina que fui, numa valsa eterna da tua angústia.

Publicado por Fairy_morgaine em 08:30 PM | Comentários (3) | TrackBack (0)